2.10.09

O fado melancólico da vitória 'pê-ésse'


Foto: Pedro Elias

O uniforme de cor 'bordeaux' esconde-se na entrada do corredor de serviço do hotel Altis - qual gato-escondido-de-rabo-de-fora -, os óculos ovais, bem presos à carne facial, ampliam-lhe os olhos vivos que espreitam pela fresta formada pela porta entreaberta. Com ar divertido, uma decana funcionária joga sozinha o jogo do gato e do rato, para não aparecer nos directos televisivos que aguardam a chegada dos 'notáveis' do PS para a longa noite eleitoral. "É sempre a mesma confusão", resume a senhora de meia-idade, anos suficientes para ter assistido ali a inúmeras celebrações socialistas. Está sem tempo para conversas demoradas e curiosas: quando se apagam as luzes vermelhas das câmaras serpenteia entre os jornalistas, com a vassourinha e a pá na mão para apanhar as folhas secas que o vento faz cair das árvores.

Ainda faltam duas horas para as primeiras projecções às oito da noite, as urnas ainda nem sequer encerraram, mas a concentração de figuras do partido já começou: o ex-ministro da Saúde, António Correia de Campos, um dos primeiros a sair do governo, é dos primeiros a chegar. Entra pela mesma porta que os apoiantes ditos anónimos e sem o material de propaganda na mão. O marketing 'Sócrates2009', com as cores da República, luta com as mais tradicionais bandeiras de um vermelho-vivo, que trazem estampado há largos anos o velho punho socialista. Augusto Santos Silva, que ficará, entre outros, com o cognome de 'ministro da propaganda', já chegou ao Altis. Não será, porém, o homem que exortou o partido a "malhar" nos adversários o que retrai Jorge Ribeiro. Será, isso sim, as circunstâncias. Veste umas calças de ganga já muito gastas e uma t-shirt branca (não menos coçada e onde já não se lêem algumas letras) da sua cooperativa. Tem medo que o barrem à entrada do hotel, logo ele, que deambulou ao final da tarde pelas sedes do PS e PSD. Com passagem última pelo hotel Vitória, onde se concentra a CDU. Também ele já foi comunista, até ao final dos anos 80, e apesar de ter boas memórias da vitória que deu a reeleição a António Guterres em 1999, recorda com saudades o antigo homem do aparelho, Jorge Coelho, e com maior nostalgia ainda o movimento de massas comunista. "No PCP era mais fácil mobilizar, PS e PSD são mais burgueses".

Burguês é como chega Manuel Pinho, ao pôr-do-sol - poucos notam a entrada do seu carro de alta-cilindrada na garagem; mais desenvergonhada é a saída para o meio do povo em festa, já ao final da noite, para ser vivamente felicitado, e recolher, também ele, os louros da vitória nas urnas. Alvo preferencial das conversas de café depois do episódio dos 'corninhos' a Bernardino Soares no Parlamento, o ex-ministro da Economia devolve um sorriso à provocação brincalhona: "Já voltou a trabalhar?".
São já os ecos da descontracção da vitória. Que começou estrondosa, com gritos de histeria, pulos de satisfação e felicitações trocadas ao telemóvel. O PS sempre era ainda o partido mais votado após quatro anos e meio de desgaste político. Depois os festejos foram baixando de volume, à medida que se confirmava a esperada perda da maioria absoluta somada à impossibilidade de negociar acordos parlamentares apenas com um partido à Esquerda. Governar à esquerda só a três e isso tirou brilho a um José Sócrates, ainda assim aclamado, já bem perto da meia-noite, no cimo de um palco improvisado num camião, que ocupara já a rua entretanto cortada ao trânsito. Mas a caravana socialista, depois de milhares de quilómetros na estrada, já não iria cumprir a curta distância até ao Largo do Rato, onde há quatro anos se tinha festejado efusivamente a primeira maioria absoluta do PS. Com festejos tímidos e a melancolia do "e agora?", Sócrates preferiu enganar o trago agri-doce da vitória com um bitoque, em vez de prolongar a fome num passeio até ao Rato.

"Há uma semana ganhar por um voto já era bom, com as últimas sondagens a expectativa aumentou", comenta em tom nervoso um dos 'boys' candidato a um 'job' socialista. Mais velho nos seus 69 anos, Vasco Santos, cujo único 'job' na política foi o de secretário da junta de freguesia da Ventosa (Alenquer) "numa altura em que não se ganhava nada", não sabe ao certo qual a margem da vitória nas urnas, mas não tem pejo em classificá-la como "uma goleada à Benfica". Tinha ouvido apenas os primeiros ecos da satisfação chegados do interior do Altis, onde só mais tarde conseguiu entrar por breves instantes. "Disseram-nos da Juventude Socialista que podíamos entrar para comer. Chegámos lá e já não havia nada", lamenta a esposa, que o acompanha "nos bons e maus momentos", na política e no estádio da Luz. De boné e mochila com as cores benfiquistas, Vasco está agora mais interessado em comentar a goleada da véspera contra o Leixões e a violência dos jogadores adversários.

Entrada "a pés juntos" tinha sofrido o PSD de Manuela Ferreira Leite, que acompanhava os resultados num hotel ali perto. O próprio copo da alegria socialista estava já meio vazio quando no Altis volta a aumentar-se o som das televisões. A líder laranja prepara-se para assumir a derrota. É chegado o momento da catarse, alimentado pela atracção da tragédia e pela queda dos poderosos. Nos rostos não há sorrisos vitoriosos, percebe-se o respeito pela maior derrotada da noite. "Está numa situação difícil, os seus dias estão contados", vaticina Jorge Fonseca, manager da EMA Partners, que não é militante do PS "mas é como se fosse".

Ministros e anónimos transpiram agora juntos na sala da cave onde é aguardado o secretário-geral para o discurso da vitória. O suor escorre no peito de um jovem roliço que tem a camisa branca parcialmente desabotoada. Está num grupo de 'jotas' que vai recebendo a actualização dos resultados no Blackberry e apontando-os no verso de um talão de Multibanco. "A minha mãe é professora, proibi-a de ir votar nestas eleições. Felizmente ela faz o que lhe digo". "A minha também", confirma outro, de barba controladamente crescida. Sócrates irrompe na sala e interrompe o bocejo generalizado ao proclamar uma "vitória extraordinária". A expressão do outrora "animal feroz", hoje um líder na pele de cordeiro - "tenho a maior vontade de ouvir os outros partidos" / "Obrigado senhores jornalistas" - deixa a impressão de pouco convencer. Fora do hotel algumas centenas de apoiantes à espera ouvem o apelo à atenção do proprietário do veículo 52-38-ML para se dirigir imediatamente para junto do mesmo. "Sócrates vem aí!", 'speaker' de serviço anuncia a 'superstar' da noite. Euforia, apertos e de novo a excitação.
Schhssss! Silêncio que se vai cantar o fado.

Reportagem publicada no WEEKend, suplemento de 6feira do Negócios

2.4.09

a crise no centro de emprego

Um prolongado e preguiçoso bocejo matinal encontra reflexo na montra espelhada do centro de emprego do Conde do Redondo, em Lisboa. A meio da manhã, o Sol de Inverno, que já bate em força e de frente nos olhos, desenha um retrato mais luminoso da monotonia de mais um dia para acrescentar a tantos outros. As pontas de cigarros, fumados até ao filtro da infinita paciência, morrem agora na tradicional calçada portuguesa, como ponteiros de um relógio que assinala as horas de espera por um trabalho que se perdeu.
Localizado bem nas entranhas da capital, este centro de emprego é apontado como um modelo do bom funcionamento, distante, muito distante, do ponto mais real de saturação que outros atingem dia após dia, com o avolumar das estatísticas do desemprego. A crescente desertificação das freguesias que abrange, nas imediações do Marquês de Pombal, considera-se neste texto o factor número um; a estrutura económica, assente nos serviços, restauração e turismo, completa a panorâmica deste oásis. “Aqui não sentimos o que vemos na televisão”, atesta Rui Coelho, director do centro de emprego, com a memória a ocupar-se da lembrança de mais uma abertura de telejornal noticiando novos despedimentos em massa. No Conde Redondo, onde são atendidas diariamente uma média de 200 a 250 pessoas por dia, começa também a notar-se uma maior afluência, expressa em números redondos, entre 5% a 10%, pelo responsável do centro. Nos primeiros dias de Março, Rui Coelho vai ser obrigado a actualizar estas percentagens. É no início dos meses que têm surgido mais novos inscritos, depois de verem interrompido o outrora estável vínculo laboral.
Apesar dos dois anos que já passaram, Joaquim Baltazar lembra-se bem do momento em que a empresa onde trabalhava “não se aguentou” e interrompeu abrupta um ininterrupto e orgulhoso ciclo de dedicação profissional ao ofício de empregado de escritório: dos 18 aos 54 anos. As contas que durante anos se habituou a fazer com a calculadora faz agora de cabeça e em repetição magoada. “Tenho mais um ano de fundo de desemprego, até Fevereiro de 2010”. “Para o ano chego aos 40 anos de descontos para a Segurança Social e pode ser que meta os papéis para a reforma antecipada”. Nos últimos dois anos preencheu o tempo numa instituições particular de solidariedade social; segunda-feira ficou a saber que passará os dias em programa ocupacional numa junta de freguesia “ali para os lados da Feira da Ladra”. Sai contente do centro de emprego, com o sol, que agora vai mais alto, a testemunhar o novo sorriso. Acende um cigarro – o bigode amarelado que lhe tapa o lábio superior denuncia a condição do vício –, o último da espera, e segue rua abaixo. Ao desemprego já perdeu esperança de virar costas: “Não acredito que vá arranjar emprego este ano. Querem alargar a idade da reforma, mas na prática já não somos válidos porque ninguém nos quer”, atira do alto dos seus 56 anos.
Lá dentro, ainda de senha branca na mão, há um madeirense a piorar as estatísticas do centro de emprego do Conde Redondo. “Era pior se fosse a cor-de-rosa”, tonalidade que, em suprema ironia cromática, identifica o número para atendimento de novos inscritos. Está bem disposto, nota-se bem, com aquela aura própria dos que ainda vivem dos sonhos. Mesmo que o sonho, já antigo e para o qual não basta uma mão para contar em anos, tenha surgido do pesadelo do despedimento. Empacotou os poucos pertences que os curtos 27 anos de vida lhe permitiram acumular, e voou para Lisboa. Na capital vive ainda o “Lisbon dream”, versão menos colorida que o congénere norte-americano em épocas idas, mas fascinado pelas novas oportunidades que acredita existirem abundantes em território continental. E maravilhado também com a nova independência, que exclui porém aquela financeira, já que vive ainda com a ajuda do pai. O subsídio de desemprego, 65% do que antes ganhava como contabilista no Funchal após sete anos de trabalho acumulado que se seguiu ao curso profissional na área, esta prestação social esgota-se todo nos custos de sobrevivência. Um mês de busca intensa em Lisboa ainda não lhe rendeu a tal oportunidade, mas não é ainda capaz de lamentar as trocas que deu ao destino ao deixar esquecida nas ruas do Funchal a ambição anterior de emigrar para Londres ou Barcelona.
O Sol quando nasce é para todos, dizem. Não interessa a condição social, económica ou, neste caso, o seu reflexo na empregabilidade. Mas em Sintra, a poucas dezenas de quilómetros do oásis do Conde Redondo, muitos acordaram antes do nascer do astro apenas para reservar um lugar, ainda que pouco solarengo, à porta do centro de emprego para serem os primeiros a recolher uma senha. Ao ritmo da fatalidade do destino e de um serviço público lotado, que não consegue dar resposta à multidão desempregada vinda na enxurrada da crise, assistem depois ao lento movimento solar até à hora de atendimento. “Em Sintra há muita gente, está tudo congestionado”, confirma Carlos Azevedo, que o centro de emprego da vila histórica enviou ontem a uma entrevista no centro de emprego de Picoas. Ao lado, um homem suspira, “senão valha-nos Deus”, aliviado por se poder apresentar quinzenalmente numa associação da freguesia. Amanhã o Sol volta a nascer para todos. Haja ou não emprego, com ou sem senha na mão.


Reportagem publicada no Jornal de Negócios em Fevereiro de 2009

a crise em casa

Nas três assoalhadas do n.º 161 da lisboeta rua Tomás da Anunciação, na exígua e acolhedora casa dos Raimundo, nunca morou uma família da classe média folgada, “dessas que já foi passar férias ao Brasil”, mas o baixo, o reduzido e o mingar entram cada vez mais no léxico que usam para classificar a classe social do agregado. Tal como nas férias se ficam agora pelo “sol ali da Costa”. “Nos últimos anos sentimo-nos a encostar mais abaixo na classe média”, relata Ana Maria Raimundo, a mãe de 56 anos, que há mais de três décadas trocou o silêncio de Arraiolos pelas luzes da capital.
Os últimos anos de que fala a funcionária pública, que recentemente passou do serviço de contabilidade para o aprovisionamento do Ministério da Agricultura, foram aqueles em que se congelaram as progressões e os salários na função pública. “Foi sempre um balde de água fria a cada aumento, o meu vencimento sempre foi uma gota de água no orçamento da casa”, admite. Após 36 anos “de serviço” ficará a viver a partir de Setembro com os 700 euros mensais que lhe dão o pedido de reforma antecipada do Estado.
António Manuel Raimundo, electricista, é o patriarca da família e o homem das reparações em casa “que nos poupam muito dinheirinho”. Com a crise e os constantes aumentos dos preços e das despesas do agregado, confessa, já chegam ao final do mês sem dinheiro e esperam pelo pagamento das horas extraordinárias que faz nas centrais térmicas da EDP, empresa onde tem “a sorte de ter um emprego fixo há 32 anos”. “Se não for o dinheiro dessas horas – a esposa interrompe a conversa - as nossas poupanças ficam delapidadas e entramos muitas vezes em saldo negativo”. Vão todos os dias para o trabalho no carro da empresa ou de transportes públicos e a viatura de 18 anos da família só sai do lugar aos fins-de-semana. “Quem suporta o aumento dos combustíveis é o pessoal que trabalha”, frisa António, para quem a escalada do preço da gasolina se deve à “especulação que veio depois da guerra no Iraque”.
Dona Ana lembra as pequenas mudanças que acolheu na sua vida, as coisas comezinhas que são aquelas de que se recorda e que mais atrapalham: “Comer fora o pequeno-almoço passou a ser um luxo, já não o faço. São três euros de cada vez, 600 escudos na moeda antiga, lembra-se?”. Dão primazia à alimentação e ao vestuário, mas roupa nova só compra se houver disponibilidade “senão anda-se com as botas do ano passado”. “Não nos excedemos mas também não nos privamos de coisas essenciais por enquanto. Mas já estivemos mais longe disso”, lamentou Ana Maria. E a conta do supermercado?
É António Raimundo que se antecipa agora e rouba a palavra à mulher de sempre, mãe dos seus três filhos. “Notamos que gastamos mais. Há um ano atrás, com o mesmo dinheiro comprávamos muito mais coisas”, diz quem assume as idas ao supermercado para preparar os petiscos alentejanos que lhe lembram a infância em Arraiolos.

O medo pelos filhos
Com Cláudia Sofia, a mais velha de 29 anos, a viver fora de casa dos pais, Ana Maria, mãe-galinha, teme pelo futuro dos dois filhos mais novos. Não tem dúvidas de que “eles vão viver pior que os pais”, e o que mais a assusta é a precariedade e a insegurança no trabalho.
O desgosto do pai António, explica, é que o filho Luís, 27 anos, não tenha optado por uma área mais técnica. Vive ainda em casa dos pais, estuda geologia - “um curso que não chove nem molha” – e agora trabalha também a tempo parcial num call-center. O pai sorri, porém, ao lembrar “o filho armado em pintor” que cobriu com as suas telas o quarto único onde dormem os filhos. Criou um blogue onde tenta vender os quadros que pinta nas horas vagas e o pai admite no final que o filho “até não tem assim muito mau jeito”. A Cátia, de 16 anos, é a menina da família, “que já não é nenhuma menina”, corrige logo a seguir a mãe Ana Maria, que não esconde a esperança de remodelar a decoração do quarto, que espera há anos. “Ao fim destes anos todos pensava que os nossos rendimentos já dessem para fazer uma conta a prazo”, resume.


Reportagem publicada no Jornal de Negócios em Junho de 2008

17.2.09

Façamos de conta


Por Mário Crespo.


Façamos de conta que é normal a sequência deentrevistas do Ministério Público e são normais e de boa práticademocrática as declarações do procurador-geral da República. Façamosde conta que não há SIS. Façamos de conta que esta democracia está afuncionar e votemos. Votemos por unanimidade porque de facto nãointeressa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.
Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houveinvulgaridades no processo de licenciamento e que despachosministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Quenão houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referirmontantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que aUniversidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio deum caso de polícia com arguidos e tudo.


Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês.Façamos deconta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que,pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid jurisirrepreensível.Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão comque na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu oprimeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numadas "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aosprodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu.


Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos,tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o"Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratadospara encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamosde conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugalconsiderando-a do melhor que há no Mundo.


Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com oPS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que doque gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbiedisse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol nãodeclarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas sepublicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que oministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentarsaber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre oFreeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizerque queria ser tratado por ministro e sem confianças de naturezapessoal.


Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta deliberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não éinfinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao CasoDreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professorCharrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestaçõeslegais de professores.
Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do MinistérioPúblico e são normais e de boa prática democrática as declarações doprocurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS.Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobreo Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queriadizer nada disso.


Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos.Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se comotodas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos,Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de factonão interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.


Artigo de opinião publicado no JN [09 Fev. 2009]

14.2.09

Love that lasts 4ever

Here is a song
It reminds me of when we were young
Looking back at all the things we've done
You gotta keep on, keepin on
Out to sea, it's the only place
I Honestly
Can get myself some piece of mind
You know it's gettin' hard to fly

If I'm to fall
Would you be there to applaud?
Or would you hide behind them all?
'Cause if I have to go
In my heart you'll grow
And that's where you belong...

Guess I'm outta time...
I'm outta time...

Oasis live_2morrow @ pav. atlântico, lisbon.

27.1.09

Regresso ao Oriente


Tem qualidade e talento na guelra, espalha pela cidade belas fotografias da mágica China. E ainda por cima imagens construídas pela minha talentosa amiga Paula, arquitecta 'ex-Contacto' em Shanghai.
Para ver e a não perder até 08 de Fevereiro, em Lisboa.

30.12.08

Fantástico 2009!

"De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre a começar,
a certeza de que é preciso continuar,
a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...

Portanto, devemos:
fazer da interrupção um caminho novo,
da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte,
da procura um encontro..."

Fernando Pessoa

22.12.08

Frase de época

A situação dos mercados financeiros é tão má que as mulheres estão de novo a casar por amor.

10.12.08

Profissão: repórter



Muda o "género" e toca o mesmo:

De vez em quando lá vem a frase. Quando vieste para o jornalismo já sabias que era assim, se querias ter uma vida normal devias ter escolhido outra profissão. A frase aparece normalmente às seis da tarde quando me vêm dar mais trabalho e eu digo que estou mesmo de saída. Ou quando são sete e eu já estou que nem posso e respondo mal a toda a gente. Quando quiseste ser jornalista já sabias. Já sabia?Por acaso não, não sabia. Lembro-me que foi em 1989 e o muro tinha acabado de cair e eu olhei para a televisão e pensei isto é que devia ser mesmo fixe, estar ali, onde as coisas acontecem. Não me ocorreu que aquilo eram horas de jantar e que para estar ali, onde as coisas acontecem, não ia estar em casa a comer sopinha. Mas talvez fosse porque ainda só tinha 14 anos e também jurava a pés juntos que nunca me apanhariam de aliança e tinha a certeza absoluta que ia ser podre de rica. Eu via os sinais do tempo na televisão e lia a grande reportagem e a revista do expresso e o independente e o público - estava eu no 11º ano quando saiu o público e foi um acontecimento, comprava todos os dias e, quando gostava mesmo de uma reportagem, recortava-a e guardava-a num dossier, as minas em áfrica, o orfanato na roménia, a perestroika, a guerra do iraque (a primeira), as chuvas na índia. E eu a sonhar em estar ali, onde as coisas acontecem. Tanta profissão bonita. Podia ter sido secretária, cabeleireira, funcionária da biblioteca, contabilista, professora, engenheira, advogada. E fui logo escolher esta. Não, não sabia. Malditos sejam o miguel sousa tavares e o miguel esteves cardoso, o barata feyo e o carlos fino, o pedro rosa mendes e o luís pedro nunes, o paulo moura e o vicente jorge silva, o adelino gomes e o josé pedro castanheira e todos os outros que me fizeram pensar que ser jornalista é que era. Todos homens. Eu devia ter percebido que havia algo errado.Mas não sabia. Nem mesmo quando entrei para a faculdade e comecei a pensar mais a serio nisto tudo. Ninguém me disse que eu ia ter que trabalhar fim-de-semana sim, fim-de-semana não. Nunca imaginei que o trabalho só começasse verdadeiramente lá para as quatro. Não me ocorreu que as creches fecham às sete da tarde. Nem mesmo, vejam só a minha ingenuidade, nem mesmo quando comecei a trabalhar e percebi que toda a gente entrava depois do almoço e só saía às tantas da noite. Eu tinha 22 anos e tinha muito tempo. Eu também podia trabalhar até às quinhentas e nem precisava de folgar, para quê?, eu era nova e estava cheia de pica. Nem parei para pensar como é que eles fariam para estar com os filhos. Posso até ter dedicado uns minutos ao assunto, vá, para concluir que o melhor era ter uma empregada, de preferência interna, o que iria ser fácil porque eu ia ser muita boa e ganhar pipas de massa. Claro.Pois é, a verdade é que eu não sabia. Burrice minha, é óbvio. Ninguém tem culpa. Mas, se eu soubesse, se eu soubesse alguma vez me teria metido nesta vida?Há dias em que só me apetece mandar isto tudo pro espaço, é o que vos digo. E é porque sou uma rapariga bem educada.

Foto: do filme 'Professione: reporter', de Michelangelo Antonioni (1975)

9.12.08

Ouro negro a preto-e-branco

A quebra acentuada do preço do petróleo nos mercados internacionais está a ser provocada por um triângulo de razões menos sobrenaturais do que o das Bermudas, mas com implicações mais graves e globais do que os desaparecimentos misteriosos no Atlântico:

1. a crise financeira que atirou as maiores economias do mundo para uma recessão aguda e arrastou para uma quebra na procura que não se sentia desde o último choque petrolífero há quase três décadas;

2. a fuga dos investidores nos últimos cinco meses que os levou a “saltar do barco” que transporta o ‘ouro negro’ antes que ele afunde;

3. a perspectiva de alterações profundas na política energética sopradas pela futura administração norte-americana, que quer acabar em dez anos com a dependência da maior economia do mundo do petróleo do Médio Oriente e da Venezuela e tem como meta ambiciosa a redução das emissões de gases com efeito de estufa em 80% até 2050. Do plano de estímulo à economia, em preparação e que pode ascender aos 700 mil milhões de dólares, estima-se que 10% será aplicado na componente “verde” das tecnologias limpas. Será mesmo assim?

5.12.08

Direitos Humanos: um ideal que vive à espera de se cumprir


Sessenta anos após a assinatura e proclamação da Declaração Universal dos Direitos do Homem em Paris, todo essa humanidade e a sua descendência esperam ainda que o mesmo ideal, sonhado e saído das feridas da segunda e última declarada guerra mundial, essa carta plena de impressionante e crua actualidade que já dobrou um século, enfim se cumpra. Na circunstância do sopro das velas sexagenárias, o desejo mais ou menos secreto a pedir reafirma-se, como um espelho de seis décadas, com a aguda consciência de que nenhuma sociedade pode aspirar ao progresso e à justiça sem que o iluminado respeito pelos direitos humanos veja a claridade dos dias.
"A libertação da discriminação por motivos de raça, cor, sexo, linguagem, religião, opinião política ou de outra índole, origem nacional ou social, posição económica, nascimento ou qualquer outra condição – as promessas da Declaração Universal – permanecem como um objectivo difícil de alcançar para muitas pessoas em todo o mundo. Os direitos à liberdade de expressão, de associação e de reunião, que são indispensáveis para o funcionamento da sociedade civil, continuam debaixo de ataque sustentado em todas as regiões do mundo", resume ao weekEnd a Alta-Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Navi Pillay. Os mesmos atropelos que fazem ainda tremer os alicerces da atitude universalista cravada no ADN da Declaração continuam a ser denunciados pela Amnistia Internacional. O relatório de 2008 mostra que as pessoas ainda são torturadas ou maltratadas em, pelo menos, 81 países, enfrentam julgamentos injustos em, pelo menos, 54 países e são proibidas de se expressar livremente em, pelo menos, 77 países. Um diagnóstico sombrio projectado na voz de Irene Khan, secretária-geral da organização: "Os governos devem mostrar hoje o mesmo grau de visão, de coragem e de compromisso que levou as Nações Unidas a adoptar a DUDH há sessenta anos".
Não será por esta razão considerada a cidade-luz, mas foi na capital francesa que a 10 de Dezembro de 1948 o mundo viu nascer a declaração que Eleanor Roosevelt acreditava "poder bem tornar-se a 'Magna Carta' de todos os homens em toda a parte". Um ano depois da morte do marido e de abandonar a Casa Branca, a antiga primeira dama norte-americana, apoiante das políticas do "New Deal" de Franklin Delano, tornou-se a primeira mulher a chefiar a comissão dos Direitos Humanos da ONU. O calendário viu correr mais dois anos de trabalho até chegar aquele Dezembro em que Eleanor, ladeada por René Cassin e John Peters Humphrey, apresenta a compilação dos 30 artigos que os países da ONU consideram ser os direitos garantidos de todos os habitantes do planeta. Aquele que viria a tornar-se o documento mais traduzido em todo o mundo (certificação garantida pelo livro de recordes do Guiness), é viabilizado sem votos contra pelos 56 Estados integrantes da Assembleia Geral das Nações Unidas, com 48 votos favoráveis e a abstenção dos seis países do bloco soviético, a União Sul Africana e a Arábia Saudita. Sem se assumir como um tratado ou um acordo internacional, a verdade é que "a escassez prática da invocação legal ou constitucional da Declaração foi largamente compensada pelo intensivo significado simbólico-político que se lhe associa". E este mesmo carácter moral e idealista, na opinião do constitucionalista Bacelar Gouveia, faz com que a segunda metade do século XX fique "indelevelmente assinalada" como um dos períodos de maior progresso da humanidade.
Em 1948 Portugal não era ainda membro das Nações Unidas – a admissão só viria a ser conseguida a 14 de Dezembro de 1955 – pelo que a votação da Declaração não convocava a nação para uma tomada de posição pública, mantendo-se o país à margem da discussão, da ratificação e também do próprio respeito pelos direitos humanos, após 48 anos de uma traumática ditadura com atropelos aos direitos fundamentais, em especial os de coloração política. No advento da democracia em Abril de 1974, uma das principais preocupações dos parlamentares constituintes era a de garantir a efectiva protecção dos direitos, reflectindo-se esta ânsia na profusão de propostas apresentadas nos dois anos seguintes para projectos de Constituição e na unânime generosidade do texto constituinte nacional em sede de direitos fundamentais. Em Novembro de 1976, Mário Soares e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Medeiros Ferreira, assinam a Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Três décadas volvidas, nem toda a legislação e prática de progressos faz o país escapar ao diagnóstico crítico da Amnistia Internacional. "Mantêm-se impunes casos de violência contras a mulheres e episódios de maus tratos policiais", assinala o documento, que refere ainda a passagem em solo nacional de voos da CIA transportando alegados terroristas.
A eurodeputada socialista Ana Gomes tem assumido uma das vozes políticas mais críticas sobre o transporte e as práticas de tortura a prisioneiros, sobretudo na base militar norte-americana de Guantanamo, em Cuba. "Os governos [europeus] que passam a vida com os direitos humanos na boca têm impedido a descoberta da verdade porque são cúmplices", acusa, fazendo questão de "separar as águas entre os que defendem situações aberrantes como Guantanamo e os outros que denunciam que não vale tudo e somos diferentes dos terroristas". Ao weekEnd, a ex-embaixadora em Jacarta que assumiu na década de 90 papel diplomático de relevo no processo de independência de Timor, refere que os direitos humanos continuam bem presentes no discurso político contemporâneo, mas "infelizmente há um grande desfasamento entre a retórica e a prática", exemplificando com a "hipocrisia resultante das prisões secretas". A alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos admite igualmente "sérias falhas na implementação". "Devemos reconhecer que por vezes os direitos humanos são postos de parte em nome da segurança", frisa Navi Pillay.
O mundo contemporâneo coloca novos desafios à carta dos direitos humanos? Ana Gomes sublinha a "responsabilidade de proteger" e mostra-se contra os "espíritos arreigados à soberania dos Estados", pois, defende, quando estes falham na protecção dos cidadãos a comunidade internacional tem a obrigação de intervir. Se encarnasse Eleanor Roosevelt na história, Ana Gomes não mudaria nada. "Se houvesse algo a acrescentar seria algumas práticas relativas à protecção dos activistas dos direitos humanos que são aqueles que estão mais vulneráveis", corrige, logo de seguida, a mulher que o "The Parliament Magazine" distinguiu recentemente com o Prémio Eurodeputados 2008 na categoria de 'Activista do Ano'.
Texto (não editado) publicado hoje no suplemento weekEnd do Jornal de Negócios

4.12.08

o rei do fraque

Venham agora falar-me em superioridade institucional por um declarado sentimento anti-benfiquista...

P.S. Trata-se do mesmo homem que teve a honestidade e decência intelectual de considerar o tremoço como o seu marisco favorito.

6.11.08

Ele é único, mas tem algo em comum com toda a gente

A vida de Barack Hussein Obama espelha as múltiplas vidas de milhões de compatriotas seus, aí residindo parte do sucesso, materializado em votos, que o leva à Casa Branca no próximo ano. Essa identificação, que na terça-feira, e ao contrário do que muitos temiam, ultrapassou largamente a cor da pele, coloca-o no topo do mundo aos 47 anos.

O novo presidente dos EUA não encaixa num estereótipo, antes preenche vários. Tem a pele negra, um percurso talhado por dificuldades, mas também a melhor das educações que até um norte-americano republicano pode sonhar para os seus filhos.

Aos 23 anos larga um bom emprego em Nova Iorque para ajudar os pobres e marginalizados de Chicago a mobilizarem-se pela comunidade. Serpenteia pelos corredores do poder democrata, derrubando barreiras e apagando reticências, até ser eleito, há quatro anos, apenas o terceiro afro-americano no Senado desde o final do século XIX.

Obama tem uma pouco usual combinação de experiências de vida. Nasce no Hawai, passa a infância na Indonésia, volta adolescente para estudar nas melhores escolas e universidades do país (Columbia e Harvard), descobre o sentido das origens no Quénia, trabalha com as comunidades pobres em Chicago, cidade que escolhe para berço político.

Uma vida tão preenchida que aos 33 anos escreve um livro de memórias, recordando as lições e angústias de 'Barry', como era conhecido. É nesse manuscrito que admite o uso de drogas durante a juventude e recorda um princípio que aprende ainda muito novo da boca do padrasto indonésio: a virtude de se rodear de homens fortes quando lhe faltam as forças.

Ao crescer na ausência do pai biológico queniano e com a mãe Anna, natural do Kansas, muitas vezes distante, com a morte prematura de ambos depois, Obama transforma-se à força num homem que deve decidir e resolver as dificuldades por si próprio. Hoje tem a América e o mundo todo a abraçá-lo, mas problemas como a grave crise financeira e duas guerras no terreno estão sobre os seus ombros e, de novo, vai ter que ser ele a encontrar soluções.

A eloquência e a grandeza dos seus discursos - os críticos falam em mais estilo do que substância - contrastam com um currículo político curto. A ascensão é meteórica: passa rapidamente de jovem promessa no senado do Illinois, para onde entra em 1997, a grande estrela em ascensão dentro do partido já como senador (2004). Quatro anos depois - e 145 após a abolição da escravatura no país -, menos jovem mas igualmente fotogénico, chega à Presidência.

Uma das características mais elogiadas ao novo inquilino da Casa Branca é a de saber ouvir. "Tem um ouvido para e eloquência", diz a apoiante e popular apresentadora de TV, Oprah Winfrey. Mas se esta qualidade de Obama sopra confiança aos americanos, ela acomoda-se ainda melhor na sensibilidade do resto do mundo, que desde os primórdios da Administração Bush, sonha com um interlocutor aberto ao diálogo em Washington. O confronto com a realidade não permite certezas, mas o multilateralismo racional cultivado por Bill Clinton pode voltar a dar frutos com Obama. Para gáudio da Europa.

Quando com o ar triunfante com que acorda todos os dias, entrou no parque onde 500 mil pessoas aguardaram horas para o aclamar, Obama não escondia mais pontas de cabelo grisalho do que na manhã gélida de Fevereiro de 2007 em que anunciou na escada do capitólio do Illinois o início da grande caminhada.

Com uma postura tranquila, um tom de voz suave e uma mensagem idealista no bolso, centrada na esperança e na necessidade de construir uma ponte para passar o rio que dividia os democratas, o novo presidente é sempre subestimado. Primeiro por Hillary Clinton, depois por John McCain: os dois maiores opositores dos últimos dois anos começaram por não compreender e acabaram a não saber lidar com aquela intensidade feita de aço que ia derretendo o eleitorado, a caminho da "terra prometida" do poder, onde chega a 4 de Novembro de 2008.

O seu sonho impossível, inspirado nas figuras de Martin Luther King e Malcolm X, materializa-se na madrugada de terça-feira com uma chuva de 'confetti' vermelhos, brancos e azuis. A mudança, assegura ele, chegou à América.

Texto publicado hoje no Negócios

5.11.08

4-Nov 2008



Ele teve um sonho. Ele foi o rosto da mudança e de uma nova esperança para o mundo.

A partir de hoje, Barack Obama passa a ser um mito apenas para os livros de História e torna-se um governante mais ou menos brilhante, cujo trabalho passa a ser escrutinado ainda com maior espírito crítico por esse mundo fora. O mesmo mundo que nele depositou tanta confiança e que lhe vai exigir a recuperação económica, uma nova regulação para os mercados financeiros e o regresso da diplomacia fina à conturbada política externa norte-americana.

Cavaco Silva que nos perdoe, mas a partir de agora Obama é o nosso Presidente.

24.10.08

Outono




Uma lâmina de ar

Atravessando as portas. Um arco,

Uma flecha cravada no outono. E a canção

Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.

E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como

Uma amarra.

À espera do mar. Esperando o silêncio.

É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza

Quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.

Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se

Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.

Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede

Cumprimenta o sol. Procura-se viver.

Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.

Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se

Como se, de repente, não houvesse mais nada senão

A imperiosa ordem de (se) amarem.

Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.

Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.

Não há um nome para a tua ausência. Há um muro

Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho

Que a minha boca recusa. È outono.

A pouco a pouco despem-se as palavras.


antónio gedeão